Mulheres se organizam online contra assédio sofrido na rua

Por Joe Sharkey, The New York Times

Por Joe Sharkey, The New York Times

Me dei conta da realidade do assédio de rua contra mulheres alguns anos atrás em Rabat, Marrocos, quando minha mulher correu de volta para nosso quarto de hotel com uma expressão atipicamente abalada. Ela se aventurou sozinha em uma missão e foi abordada em uma rua perto de Kasbah por um grupo de homens. Vários deles latiam e faziam comentários obscenos, um deles se exibiu. Em plena luz do dia.

Na verdade, talvez você já conheça esta história, se é uma mulher que viaja sozinha. Na maioria das vezes, ao redor do mundo, mesmo em lugares exóticos, a vida nas ruas é serena e sociável. Embora, às vezes, as mulheres vejam uma rua completamente diferente da que os homens veem.

Nos últimos anos, houve histórias horríveis de agressão sexual violenta contra mulheres que estavam viajando, e não há necessidade de reprisá-las aqui. Agressões físicas estão em um extremo da escala de assédio de rua, porém, essa escala também engloba tipos de agressão com conotação sexual, incluindo apalpadas e abuso verbal.

Cada vez mais, redes sociais, frequentemente organizadas por jovens mulheres, têm trabalhado em conjunto por todo o mundo para compartilhar histórias e encorajar ações organizadas contra agressões sexuais de todos os tipos.

Em um grau ou em outro, isso acontece em quase todo lugar. “Eu me mudei para Nova York quando tinha 18 anos, e ser assediada nas ruas era parte da vida diária de uma jovem”, disse Emily May, cofundadora e diretora executiva de um dos mais abrangentes grupos internacionais voltados para o assédio de rua, o Hollaback .

“Eu sabia que não estava certo, mas realmente achava que aquilo era o que as mulheres precisavam enfrentar se elas quisessem morar na cidade, que era algo que não se podia mudar. No entanto, minhas amigas e eu começamos a conversar com amigos que ficaram chocados em ouvir nossas histórias. Um deles olhou para mim e disse: ‘Você mora em uma Nova York diferente da minha’. E eu falei: ‘Como assim? Por que eu vivo em uma Nova York diferente?’.”

Em 2005, aos 24 anos, May e seis amigos, três deles homens, abriram a Hollaback, que, desde então, tem comandado uma onda internacional de reações organizadas digitalmente contra assédio de rua ao redor do mundo. De seu modesto começo em Nova York, a Hollaback diz ter, hoje, afiliados em 62 cidades em 25 países, trabalhando em 12 idiomas.

O projeto é gerido por três funcionários, incluindo May, operando com um orçamento apertado de um escritório no centro do Brooklyn. Ao redor do mundo, há, hoje, 300 organizadores que foram treinados pelo grupo, a maior parte através de extensivos seminários online. May diz que a Hollaback os treinou “para conciliar histórias com ações em campo” e para expandir a consciência pública sobre o assédio de rua.

Hoje em dia, diz May, dois dos maiores centros de ação organizada contra o assédio de rua são o Egito e a Índia, países onde algumas das agressões sexuais de rua mais notórias contra mulheres aconteceram nos últimos anos. No Egito, um grupo isolado chamado HarassMap acompanha em tempo real relatórios de assédio de rua que as mulheres podem fazer anonimamente usando tecnologia móvel.

O HarassMap, em árabe e inglês, também fornece links para assistência e educação. Em 2012, o Egito reforçou as leis contra o assédio sexual na rua, incluindo apalpadas e assobios, mas, em geral, “elas não são cumpridas”, segundo o HarassMap, enquanto, frequentemente, a vítima que relata o assédio é culpada.

Na Índia, “o assédio de rua é uma realidade diária para as mulheres”, disse Rubina Singh, diretora da filial da Hollaback em Chandigarh. “É praticamente esperado que uma mulher viajando por aqui experimente comentários, olhares, perseguições, apalpadas e muito mais”. Em parte por causa do compartilhamento de histórias e redes que trazem um foco narrativo mais forte aos problemas, contudo, a polícia se tornou mais consciente quanto ao assédio de rua contra as mulheres, disse ela.

“Há também uma mudança na atitude do público de modo geral”, completou ela. “Hoje é mais fácil conversar sobre assédio de rua do que no ano passado”. Assim como outros membros das iniciativas organizadas contra assédio de rua, Singh notou que isso acontecia em todos os lugares, mesmo onde a vida na rua não era especialmente movimentada. Enquanto visitava Los Angeles, ela diz ter recebido sua “parcela de comentários e assobios”.

Quanto a coordenar organizadores internacionais e treinar novos, May completou: “Estamos sempre em encontros no Skype e no Google para nos reunirmos regularmente com todo mundo. É uma comunicação online intensa – todos eles conversam entre si para tentar facilitar uma colaboração intercultural”.

“Ainda ontem eu estava ao telefone com a nossa equipe da Croácia, e eles notaram que nossa equipe em Baltimore estava fazendo uma excelente campanha chamada ‘de volta ao bar’, para treinar pessoas que trabalhavam em bares para reagir quando vissem um ato de assédio acontecendo. E a Croácia disse: ‘É, nós temos os mesmos problemas. Queremos trazer essa campanha para cá’.”  (The New York Tïmes)

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