Professor mapeia 800 apelidos usados como bullying em escola do Rio de Janeiro

Dos adjetivos usados para ofender colegas, mais de 360 têm conotações racistas, afirma biólogo Luiz Henrique Rosa

Dos adjetivos usados para ofender colegas, mais de 360 têm conotações racistas, afirma biólogo Luiz Henrique Rosa

De tanto ouvir as “brincadeiras” e apelidos pejorativos, o professor de biologia Luiz Henrique Rosa, 43 anos, resolveu inovar o método de ensino e pediu que estudantes da escola municipal Herbert Moses, no Jardim América, zona norte do Rio de Janeiro, escrevessem os nomes que recebiam (ou diziam) em pedaços de papel e catalogou cada um dos apelidos.

O resultado o impressionou: “De uma base de 800 apelidos, mais de 360 eram relacionados a questão da raça. Quando me deparei com isso, me surpreendi. O mais comum era macaco e suas variações, mas havia muitos relacionados ao cabelo: duro, pixaim, cocô de rolinha, bombril etc. Fiquei bastante impressionado até porque 80% dos nossos alunos são afrodescentes”. Os outros apelidos, diz ele, são relacionados a questões físicas e de gênero.

O projeto, criado em 2009 e batizado de “Qual é a graça?”, tenta combater o bullying na escola com uma ação positiva para cada apelido negativo. “Tentei mostrar para os alunos que para cada nome feio nós teríamos uma atitude bonita, uma foto ou uma planta”, diz Rosa. Assim, nasceu o projeto interdisciplinar, que além de combater o preconceito, implantou um jardim temático e um mural que homenageia escravos na escola.

A ideia do mural e do jardim surgiu após uma viagem que o professor fez ao município de Vassouras, palco de uma revolta protagonizada pelo negro Manuel Congo – após o assassinato de um cativo, ele liderou rebelião e fuga de escravos das fazendas de café da região.

“Quase não tem nada sobre a história de Vassouras, cidade mais rica do Império. Teve uma repercussão nacional, mas isso não faz parte do currículo das escolas. Eu não queria homenagear só o Manuel Congo. Então tive acesso ao nome de todos os escravos mortos na rebelião”, diz o professor. Foi assim que surgiu o mural, com mais de 200 placas de mármore com os nomes dos escravos mortos. Alguns, cuja identificação não consta nos arquivos, foram relacionados com a inscrição “Deus sabe o nome” no mural.

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O professor ainda teve a ideia de contar a história do Brasil por meio das plantas. “Manuel Congo, que morreu enforcado em 1839, tinha uma filhinha de mais ou menos cinco anos. Então fiquei pensando em uma forma de como o pai dela contaria a história do Brasil para ela, que foi dado o nome da menina: Concordia”.

Com o jardim que tem cerca de 300 espécies de plantas nativas e não nativas, o professor ainda simula as viagens feitas pelos negros nos navios negreiros desde o continente africano até o Brasil. “A gente acompanha o desenvolvimento de uma espécie de planta pelo tempo que eles levavam para vir da Angola, Moçambique, Congo, e Republica Democrática do Congo, antigo Zaire, que era de onde vinha os negros para o Brasil. Neste período, fazemos relatórios meteorológicos, acontecimentos do dia a dia para ver o que são 60 dias dentro de um navio negreiro, para ver o que essas pessoas passaram”.

Além disso, com as plantas os professores de outras disciplinas conseguem trabalhar as questões específicas de cada matéria, afirma Rosa. “O professor de história pode contar a história do Brasil, com especiarias, o pau-brasil, a cana-de-açúcar. O pé de laranja lima pode ser usado nas aulas de literatura, o limão e limoeiro, nas aulas de música”, exemplifica Rosa.

Frutos

Segundo o professor, o dinheiro para as placas de mármore, as inscrições e as plantas do jardim foi arrecadado entre os alunos, pais e professores.

“Um amigo colou os mármores, que foram apadrinhados pelos alunos, pais, professores e amigos da escola. Cada uma custou R$ 3. As mudas das plantas foram compradas nas feiras aqui do bairro”, diz.

Ele calcula que já foram investidos cerca de R$ 6 mil no projeto. “É tudo feito de forma voluntária, com festas juninas e apadrinhamento”.

Tanto investimento e dedicação já renderam os frutos. “A questão da violência e agressão caiu drasticamente. A gente partiu de uma situação [de brigas] quase diária – porque a violência faz parte do cotidiano deles e é reproduzida na escola -, e há dois anos não temos brigas entre adolescentes na escola”, diz. A escola no Jardim América está rodeada pelos bairros Pavuna, Parque Colúmbia, Irajá, Parada de Lucas e Vigário Geral, dominados por facções rivais.

Ainda de acordo com Rosa, o projeto também ajudou a diminuir a depredação do patrimônio escolar. “As pessoas veem o projeto como delas, veem a importância do outro, das plantas, das formigas. Quando há algum dano no jardim é por conta das brincadeiras das crianças menores, que não quebram deliberadamente.”

Ensinamento

“Eu aprendi a me valorizar, e se alguém me colocar apelido eu não ligo. É só ignorar que eles param.” Foi esse o ensinamento que a estudante Caroline Pereira da Costa, de 14 anos, aprendeu ao participar do projeto “Qual é a graça?”.

Caroline, que estuda há dois anos na escola, diz que já sofreu bullying, principalmente depois que cortou o cabelo. “Eles me chamavam de careca, essas coisas. Eu me sentia pequeninha, diminuída em relação aos outros”. Ela, que foi matriculada na Herbert Moses em 2012, diz que, por conta do apelidos, não gostava de ir para escola e o rendimento nas aulas era ruim. “Eu não gostava de ir para escola. Quando entrei, não tinha amizade. Depois que comecei a frequentar o projeto, me espalhei e me misturei com as pessoas. Comecei a fazer amigos”, diz.

O resultado disso, a mãe dela, Edna Pereira de Souza Perdomo, 34 anos, vê no dia a dia da adolescente. “A Caroline melhorou 95%. Ela tirava notas baixas, não se adaptava. Agora, consegue administrar o tempo e melhorou até o comportamento em casa”, diz a mãe. “Até eu estou participando mais da vida escolar dela porque ela me mostra os trabalhos, me pergunta, me inclui”, relata Edna.

Atualmente, Carolina é uma das mais participativas e usa até mesmo o tempo livre para cuidar do jardim da escola. “Por mim, eu ficaria quatro tempos estudando e no último ficaria lá. No dia a dia, quando tem aula vaga, eu vou para o jardim. Ajudo os professores, orienta os alunos menores para não correr e não estragar as plantas”, diz Caroline, que já decidiu que, assim como o professor Luiz Rosa, quer cursar biologia. (Ana Flávia Oliveira, iG São Paulo)

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