Filme argentino “Relatos Selvagens” faz sucesso com personagens fora de controle

Uma briga de trânsito que termina em pancadaria; uma multa de trânsito indevida que inicia um périplo burocrático; uma traição descoberta em plena festa de casamento. Estas são três das seis breves histórias contadas em “Relatos Selvagens”, sucesso do cinema argentino que foi escolhido para abrir a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Único latino-americano a concorrer à Palma de Ouro do Festival de Cannes neste ano, “Relatos Selvagens” foi produzido pela El Deseo, de Pedro Almodóvar, e é forte candidato a uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. Carregado de humor negro, o longa levou 3 milhões de espectadores ao cinema na Argentina, um número bastante alto para o país.

Tão alto que surpreendeu até mesmo o diretor e roteirista Damián Szifrón, que desde o começo buscava dialogar com o público. “Quando escrevo, imagino uma sala cheia”, afirma o cineasta, em entrevista ao iG. “Meus filmes favoritos foram vistos por muita gente, reuniram arte e espetáculo de forma poderosa.”

Imagem do filme 'Relatos Selvagens'. Foto: Divulgação

Imagem do filme ‘Relatos Selvagens’. Foto: Divulgação

Fã de “O Poderoso Chefão”, “Tubarão”, Sergio Leone e Clint Eastwood, Szifrón se lembra de ver filmes aos 3 anos de idade. “Fui espectador durante muito tempo. Conheço bem essa cadeira [de espectador], esse prazer e essa necessidade de sentar em uma sala escura e deixar que a ficção entre no seu corpo, mude seu ânimo e, às vezes, sua vida.”

Aos 39 anos, Szifrón está no terceiro longa como diretor, após ter decidido deixar de lado a carreira de roteirista na televisão argentina. A ideia para “Relatos Selvagens” surgiu há vários anos, mas cada episódio foi escrito separadamente, em diferentes momentos.

As histórias não se interligam, mas têm em comum protagonistas fora de controle, que cometem atos desesperados e não premeditados de violência. Como os espectadores, Szifrón também se relaciona facilmente com as situações que criou. “Há algo de mim em todas as histórias. Sei muito bem de onde cada relato saiu.”

Ricardo Darín

A comédia tem no elenco o rosto mais conhecido do cinema argentino, Ricardo Darín, que Szifron chama de “embaixador”.

“Ele tem uma personalidade muito contagiosa, um misto de bondade, inteligência e picardia. As pessoas confiam nele. Quando entra num bar, a senhorinhas já dizem ‘Ricardito, vem aqui, senta’. E ele é sincero em tudo”, conta o diretor.

“Na Argentina, um filme com Darín tem muito mais chance de ser sucesso do que se tiver Tom Cruise, Richard Gere ou George Clooney no elenco.”

Atriz revelação

Mas entre os convidados que assistiram a “Relatos Selvagens” na sessão de abertura da Mostra, o episódio que mais se destacava era o protagonizado por Erica Rivas, no qual uma noiva decide se vingar do marido após descobrir a amante dele em meios aos convidados.

Para a atriz de 39 anos, muito do sucesso do filme tem a ver com a fácil identificação do público, que gostaria de fazer na vida real o que os personagens fazem na tela. “Eles são super-heróis comuns”, define. “Alguns são maus, mas são super-heróis. Pessoas que dão um passo além, que estão em um momento de decisão.”

O humor, que marca sobretudo o episódio protagonizado por Rivas, também ajuda. “Se fosse um filme mais melancólico ou sério, talvez não funcionasse. O humor gera uma empatia grande com o público e deixa a reflexão mais interessante e elevada.”

Brasil x Argentina

Na abertura da Mostra, a atriz disse esperar que mais filmes argentinos cheguem ao Brasil e vice-versa: o último longa brasileiro de que se lembra é “Cidade de Deus”, de 2002.

“Os filmes não chegam, nem mesmo as comédias mais básicas, menos profundas. Só as novelas”, diz. “Talvez porque as pessoas estejam acostumadas ao modo de contar histórias dos Estados Unidos. Ou por sermos um mercado pequeno, que talvez não interesse [aos brasileiros]. Mas acho que ganharíamos muito com o intercâmbio.”

Szifron não gosta de fazer comparações entre a produção dos dois países. “O cinema é feito por poucos indivíduos, é algo muito subjetivo”, afirma. “Tenho grande afeto pelo Brasil. Não me desperta um sentimento de competição, mas, sim, de camaradagem.”

Para o diretor, a Argentina começou a vencer dois “mitos geracionais” que limitam os cineastas: o de que o público não quer ver a produção nacional e de que fazer cinema é difícil.

“A dificuldade do cinema passa por escrever um bom roteiro. Ouço muita gente falar que está com um projeto há anos, buscando subsídio, ajuda. Mas fazer cinema já não é tão difícil graças à tecnologia. Hoje qualquer amigo tem uma câmera, ilha de edição. Há vários casos de produções pequenas que foram a Cannes e Berlim, deram bilheteria.”

“Um cineasta não pode atribuir culpa de nada a ninguém”, acrescenta. “Fazemos os filmes no contexto em que vivemos e com as ferramentas que temos”. (Luísa Pécora , iG São Paulo)

 

 

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